“O Brasil cresce nas crises”, diz o ex-ministro Rubens Ricupero

11 de agosto de 2011 | 17h11

Tânia Rabello

O impacto da crise nas Bolsas do mundo sobre as commodities, sobretudo as agrícolas, é pontual e não deve perdurar muito, acredita o ex-ministro da Fazenda e diplomata aposentado Rubens Ricupero. Em entrevista exclusiva ao Estado, Ricupero, que será um dos palestrantes do 8.º Congresso Brasileiro do Algodão e Cotton Expo 2011, entre 19 e 22 de setembro em São Paulo (SP), disse que, apesar de haver muita especulação – o que provocou a fuga dos investidores para ativos mais seguros, como ouro e os títulos do Tesouro americano –, ainda há muito dinheiro investido, por parte desses fundos de investimento, em commodities, como aponta um recente estudo da União Européia. “Não acredito, por isso, em uma fuga em massa desses fundos”, disse.

Além disso, outros fatores devem continuar ditando os preços internacionais, como a alta demanda da China e Índia, principalmente. “A China ainda tem 50% de sua população vivendo em zonas rurais; a Índia, 35%”, explica o ex-ministro. “A tendência para os próximos anos é a maior parte desta população continuar migrando para os centros urbanos, processo, aliás, pelo qual o Brasil já passou, com 80% de sua população vivendo em zonas urbanas. Teremos, como consequência, menos gente para produzir e mais gente para consumir.”

Para ter-se ideia do impacto que representa a China migrar sua população para centros urbanos, Ricupero lembra quando, nas últimas duas décadas, 350 milhões de chineses voltaram-se à manufatura. “O resultado foi a inundação do mundo com artigos chineses, produzidos com mão de obra barata.” Além disso, deve-se levar em conta que o crescimento da população mundial – que deve atingir 9 bilhões de habitantes em 2050 – tem ocorrido principalmente nos países da Ásia e da África.

O crescimento mundial, na verdade, já está sendo ditado pelos países em desenvolvimento e deve continuar assim pelos próximos anos. “A taxa de crescimento dos países emergentes e os subdesenvolvidos está na base de 6,4% ao ano, enquanto o crescimento mundial é de 3,2% ao ano, lembrando, ainda, que o crescimento dos Estados Unidos – que já entraram numa recessão não declarada – tem sido de apenas 0,8% ao ano”, explica.

“Estamos vivendo esta dicotomia, na qual os países desenvolvidos estão se afundando na crise e os países emergentes e em desenvolvimento seguram o crescimento do mundo”, diz ele, acrescentando: “Esta dicotomia precisa continuar, para que não haja uma crise ainda mais grave.”

De todo modo, Ricupero acredita que a turbulência no mercado de ações ainda vá perdurar por seis meses ou mais, “porque os fatores que estão provocando essa turbulência não vão desaparecer tão cedo, como os cortes obrigatórios que os Estados Unidos terão de fazer no seu orçamento até 27 de novembro e o problema da dívida dos países da União Europeia, que começou com países periféricos e agora chegou à França, a segunda economia do bloco”.

Ainda sobre os cortes no orçamento norte-americano, ele aposta que o Brasil pode se beneficiar, já que aí estariam inclusos os pesados subsídios aos agricultores americanos, que distorcem o comércio mundial de commodities agrícolas. “A defesa nacional americana é o setor que prioritariamente sofrerá os cortes, mas isso representa apenas 30% do total necessário”, lembra Ricupero. “Os outros 70% passarão por vários setores, incluindo o dos subsídios agrícolas.”

“O Brasil tem crescido nas crises”, afirma Ricupero, que acredita que, se, no pior dos cenários, o mundo cair numa forte recessão, o País tem condições de minimizar o impacto disso tomando várias medidas internas. Entre elas, reduzindo sua taxa de crescimento de 3,5% a 4% ao ano – o que não seria um desastre, já que a taxa de crescimento demográfico do Brasil reduziu-se para apenas 0,8% ao ano –; baixando os juros para manter o consumo aquecido e o nível de produtividade – “Caso haja uma recessão, reduz-se a pressão inflacionária e abrem-se condições para a redução dos juros”, explica –; e, além disso, cortar gastos com a máquina pública. “Numa situação de crise como essa, em que o mercado externo se comprime, deve-se voltar para o mercado interno”, diz o ex-ministro. “O Brasil vai ter de crescer para dentro, não para fora”, finaliza.

Embaixador Rubens Ricúpero

Bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1955-1959). Fez curso de preparação à carreira diplomática do Instituto Rio Branco, no Rio de Janeiro, entre 1955 e 1960. Atualmente é presidente do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e diretor da Faculdade de economia da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP.

Foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e subsecretário geral da ONU entre 1995 a 2004. Foi Ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal e Ministro da Fazenda.

Foi chefe da Divisão de Difusão Cultural (1971-1974), chefe da Divisão da América Meridional – II e de Fronteiras (1977-1981), chefe do Departamento das Américas (1981-1985), assessor internacional do Presidente-eleito Tancredo Neves (1984-1985), subchefe da Casa Civil do Presidente da República (1985), assessor especial do Presidente da República (1985 – 1987), embaixador – representante permanente do Brasil em Genebra (1987 – 1991), coordenador do Grupo de Contacto sobre Finanças da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro (1992), embaixador do Brasil em Washington, (1991 – 1993), embaixador do Brasil em Roma (1995).

Em Genebra exerceu as atividades de presidente do Comitê de Comércio e Desenvolvimento do GATT (1989), presidente do Conselho dos Representantes do GATT (1990), presidente das Partes Contratantes do GATT (1990 – 1991) e presidente do Grupo Informal dos Países em Desenvolvimento do GATT (1989 – 1991).

Enquanto acadêmico, foi professor da Teoria de Relações Internacionais, da UnB, em Brasília (1979 – 1987, 1994), professor de História das Relações Internacionais do Brasil, do Instituto Rio Branco (1980 – 1987, 1994), professor honorário da Academia Diplomática do Peru e professor da UNITAR da ONU (cursos ministrados no Suriname e Gabão).

Com tantas credenciais, Rubens Ricúpero é o principal conferencista do 8º CBA.

Agenda: Conferência Master 04, dia 22/09, Sala 2/3,
a partir das 14h00

Confira a programação completa.

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